11 Setembro 2008

O papel escrito a duras penas por uma prostituta

Me darei por inteiro aos homens quando, ao mesmo tempo, eles não me terão por completo. Faltará o carinho e sobrará luxúria. Enquanto meu sexo não me purificar, farei com que ele peque. E que o pecado sangre, tal qual uma chaga cristã, um arranhão nas costas ou uma mordida roxeada. Um lábio cortado num beijo, que mancha seu dentes e escorre pela sua saliva cheirando a cigarro barato. Vou unir o útil ao degradável. O suor que cheira a carne viva de alma morta. ´Estaremos em lados opostos por um tempo, baby´. Você calma e eu na cama. Você sorrindo e eu gemendo. Até eu rastejar pedindo que me coma puxando meus cabelos e xingando com ódio. Até eu saber quando parar. Quando não gostar. O asco. Até eu achar que o gosto de porra me dá ânsia e, quando me ajoelhar diante de seus pés, não quererei abrir tua braguilha e te chupar. Estarei, apenas, abraçando suas coxas em busca de um abraço silencioso.

17 Julho 2008

lover's spit

o tumor eterno que ela assume ter no coração e que não lhe permite integridade aos sentimentos somado à consciência de que ela não têm motivo fundado para estar magoada comigo e só o contrário é de direito, apesar da sensação tão bem forjada que até me arrasta. isso, ou as consequências disso, resume uma cena que se dissolve sofregamente desde que foi ingerida, paralelamente a um processo de composição de uma nova estrutura do que eu sou e vivo.
levo alguns flashs céticos como em ressaca que não poderiam ser chamados de saudade. na prática os avanços são um tanto estáticos para quem já sabe com que certezas lida, mas reavaliar cada pedaço de chão já envolve uma preguiça permitida. porque de resto, dependo muito de alguma sorte estimulante. coisa que, infelizmente, não tem rolado mesmo.

06 Julho 2008

Aos que vieram da mesma costela:

"(...)eu tinha de gritar em furor que a minha loucura era mais sábia que a sabedoria do pai, que a minha enfermidade me era mais conforme que a saúde da família, que os meus remédios não foram jamais inscritos nos compêndios, mas que existia uma outra medicina (a minha!), e que fora de mim eu não reconhecia qualquer ciência, e que era tudo só uma questão de perspectiva, e o que valia era o meu e só o meu ponto de vista, e que era um requinte de saciados testar a virtude da paciência com a fome de terceiros, e dizer tudo isso num acesso verbal, espasmódico, obsessivo, virando a mesa dos sermões num revertério, destruindo travas, ferrolhos e amarras, tirando não obstante o nível, atendo ao prumo, erguendo um outro equilíbrio, e pondo força, subindo sempre em altura, retesando sobretudo meus músculos clandestinos, redescobrindo sem demora em mim todo o animal, cascos, mandíbulas e esporas, deixando que um sebo oleoso cobrisse minha escultura enquanto eu cavalgasse fazendo minhas crinas voarem como se fossem plumas, amassando com minhas patas sagitárias o ventre mole deste mundo, consumindo neste pasto um grão de trigo e uma gorda fatia de cólera embebida em vinho, eu, o epilético, o possuído, o tomado, eu, o faminto, arrolando na minha fala convulsa a alma de uma chama, um pano de verônica e o espirro de tanta lama, misturando no caldo deste fluxo o nome salgado da irmã, o nome pervertido de Ana, retirando da fímbria das palavras ternas o sumo do meu punhal, me exaltando de carne estremecida na volúpia urgente de uma confissão (que tremores, quantos sóis, que estertores!) até que meu corpo lasso num momento tombasse docemente de exaustão.(...)"

e depois:

"(...) não reprimirei os cantos dos lábios se a peste dizimar nossos rebanhos, e nem se as pragas devorarem as plantações, vou cruzar os braços quando todos se agitam ao meu redor, dar as costas aos que me pedem por socorro, cobrindo os olhos para não ver suas chagas, tapando as orelhas para não ouvir seus gritos, vou dar de ombros se um dia a casa tomba: não tive o meu contento, o mundo não terá de mim a misericórdia; amar e ser amado era tudo o que eu queria, mas fui jogado à margem sem consulta, fui amputado, já faço parte da escória, vou me entregar de corpo e alma à doce vertigem de quem se considera, na primeira força da idade, um homem simplesmente acabado, bastante ativo contudo para furar fundo com o indicador a carne podre da carcaça, e, entre o polegar e o anular, com elegância, fechar trópicos e outras linhas, atirando num ossário o esqueleto deste mundo; pertenço como nunca desde agora a essa insólita confraria dos enjeitados, dos proibidos, dos recusados pelo afeto, dos sem-sossego, dos intranqüilos, dos inquietos, dos que se contorcem, dos aleijões com cara de assassino que descendem de Caim (quem não ouve a ancestralidade cavernosa dos meus gemidos?), dos que trazem um sinal na testa, essa longínqua cicatriz de cinza dos marcados pela santa inveja, dos sedentos de igualdade e justiça, dos que cedo ou tarde acabam se ajoelhando no altar escuso do Maligno, deitando antes em sua mesa, piamente, as despojadas oferendas: uma posta de peixe alva e fria, as uvas pretas de uma parreira na decrepitude, os algarismos solitários das matemáticas, as cordas mudas de um alaúde, um punhado de desespero, e um carvão solene para os seus dedos criadores, a ele, o artífice do rabisco, o desenhista provecto do garrancho, o artesão que trabalha em cima de restos de vida, puxando no traço de sua linha a vontade extenuada de cada um, ele, o propulsor das mudanças, nos impelindo com seus sussurros contra a corrente, nos arranhando os tímpanos com seu sopro áspero e quente, nos seduzindo contra a solidez precária da ordem, este edifício de pedra cuja estrutura de ferro é sempre erguida, não importa a arquitetura, sobre os ombros ulcerados dos que gemem, ele, o primeiro, o único, o soberano, não passando o teu Deus bondoso (antes discriminador, piolhento e vingativo) de um vassalo, de um subalterno, de um promulgador de tábuas insuficiente, incapaz de perceber que suas leis são a lenha resinosa que alimenta a constância do Fogo Eterno!."

Raduan Nassar, in
Lavoura Arcaica.

Recomendo muito.