Loira, magrinha, olhar perdido, me falava tanto do Álvaro.
- Ele é todo gente boa, dança salsa, me lê uns poema bonito de chorar. Você precisa muito de conhecer o Álvaro. A gente vai de a pé pro centro, ele me mostra os lugar. Dos sujo aos fino, cê sabe, né. O Álvaro é simples, gente humilde mesmo, mas de vez em quando inventa de levar eu pros lugar chique e, menina, eu fico assim meio sem ar, meio danço, meio num danço porque me envergonho. Mas daí acendo um cigarro, imagina, porque eu não fumo, mas o Álvaro sempre me diz: mulher, acende um cigarro e sorri porque eu te amo e hoje a noite é nossa. Ele fica lá conversando com os outros moço. Ele adora conversar, se deixar, fica a noite toda. Ele sabe que meu negócio mesmo é dançar. Ah, eu adoro. Às vezes eu bebo demais da conta, gente do céu, desde pequena meu pai falava: ah, mas essa daí bebe feito cabrito desmamado. Ele achava era bom que no meio de tanto homem barbado da família eu encarava uns quatro cinco rabo de galo praticamente seguido. Eu sempre mostrei pro velho que eu num era mulherzinha não, dessas que fica chorando por homem qualquer, sonhando com galã de tevê, bonzinho e rico. Cê sabe, né, eu amo o Álvaro, mas trouxa eu também não sou. Se eu vejo que, pô, o cara só quer é aquelas coisa comigo e nada mais, ah, caio fora. Gosto de curtir a vida, tenho lá meus defeito porque sou ser humano, mas sempre fui mulher de um homem só. E outra, essas coisa aí de cama, ah não é com qualquer um que eu converso não. Tenho meus valor também - não sou burra de ficar aí contando porque o povo adora falar. Depois fica na boca dos outro que eu dormi com não sei quem. Já me basta uma vez que o Joacir, um motoboy que eu namorei, resolveu espalhar pra cidade toda que eu tinha feito umas coisa errada com ele. Assim, não errada, né, mas assim que num é de se falar. Cê entende?
- Que coisa errada?
- Ah, num é errada, mas é de safadeza e eu prefiro não dizer. Isso já rodou meio mundo e mais pouca vergonha que isso, só o povo tocando no assunto o tempo todo. Outro dia entrei no bar pra comprar um cartão telefônico porque a minha tia lá de Resende, ai coitada, sofreu uns ataque de não sei o que e eu morrendo de peso na consciência resolvi ligar porque eu pensei: se a velha morre, deus me livre, vai que me assombra de noite. E por causa de um ou dois real, né, num custa a gente fazer o bem pros outro. Ainda mais quando é ente querido, sabe, mora longe mas a gente tem de considerar e respeitar. Ainda mais que eu tenho pavor desse papo de defunto. Ai, depois num durmo, credo! Fui lá comprar o cartão pra ligar pra minha tia e tinha dois moço no bar. Um deles era bem bonitão, parecia até o moço do filme que eu fui ver na casa do Álvaro outro dia. Mas o filme era preto e branco, ah, o Álvaro adora esses filme antigo, bem velho mesmo com a imagem tudo esborrotada. E o bonitão do bar que parecia mais era galã de filme me olhou daquele jeito de macho que te devora com os olho, sem respeito nenhum, bem safado mesmo. E na hora até que eu gostei, viu, porque eu tava livre e desempedida e que mulher não gosta dum canalha, né? Mas só gosta de paquerar, né. Porque esses tipo eu não namoro. Daí que eu olhei de volta pra ele e dois mês depois não é que eu embuchei? Ah, meu pai não gostou, não. Disse que se o cabra não casasse, o negócio ia era comer solto. Porque meu pai tá velho, mas o homem é danado de bravo. E daí que o bonitão de olhar safado era o tal do Joacir, o motoboy que me embuchou. Ah, um tonto viu. Homem quando dá pra ser burro e fazer besteira, minha filha, pule fora porque não vale mesmo a pena. Daí que o Joacir, pra se ver livre de mim e do meu pai, acabou foi inventando umas calúnia, dizendo que eu... ah, deixa isso pra lá. Tenho até vergonha de falar, viu. Cê sabe que eu gosto de conversar com você, né? Ah, eu gosto demais, Débora. Você é boa moça, sabe conversar, né. Eu gosto demais de conversar com você, viu?
- Yo también. Mas não me enrole, Luiza. Eu quero saber o que o Joacir espalhou pro povo.
- Que foi que cê falou agora?
- O quê?
- Cê também o quê? Deve de ter sido outra língua. Ah, se foi inglês eu num entendo não. Você com essas sua mania de rock do estrangeiro! O Álvaro ouve rock de vez em quando. Eu de nada entendo, peço é pra desligar porque num é que sou chata, mas me dói a cabeça aqueles barulho pesado. Desculpa eu dizer até, mas essas coisa de cemitério, roupa preta, cê sabe que não é coisa de Deus, né? O pastor falou outro dia que quando era jovem ia pras festa se drogar e ouvir rock, mas bom, o pastor também falou umas outras coisa que eu não concordei, viu. A igreja tem umas coisa que se eu contar, nem você que é roqueira doida acredita, viu, Débora. O Álvaro não gosta de ir pra igreja. Às vezes de domingo faz uma cara feia quando eu digo que vou pra lá. Mas eu também acho meio chato, mas num quero ficar com peso na consciência não. Eu acho é importante você ir pra igreja às vezes, sabe, valorizar as coisa da vida. Porque se nóis tá aqui é que Deus quer e faz isso por nóis - que só temo mesmo é de agradecer.
- E o que foi que o Joacir falou?
- Ai, minha filha. Mas você nem vai dormir se eu te contar. Joacir era um porco! Bebia feito um. Chegava na porta da minha casa depois de ficar a noite toda no bar. Com um bafo de pinga, menina, gritava que me amava, que queria era casar. Tudo conversa. No final o cretino pulou fora feito cabrito enviadado. Confiar nos rapaz de hoje em dia é um problema. Cê toma cuidado, viu. Pensa bem quem é que você vai escolher porque a vida tá cheia desses cabra feito o Joacir, aquele bebum mentiroso. Agora cê me desculpa mas eu já vou porque dá seis da tarde e o ponto enche de gente, aí fica todo aquele povo apertado dependurado nas porta - eu morro de medo. Cê avisa sua mãe que hoje num deu pra limpar as janela porque com essa chuva aí, melhor só limpar amanhã. Porque fica as planta da vizinha escorrendo água com terra na nossa janela, nem compensa limpar. Amanhã qualquer coisa eu falo com a sua mãe prela falar com a mulher, né. Terra na janela dos outro, que desrespeito. E as toalha tão passada também. Fica com Deus.
Bate a porta e vai. Silêncio. Acendo um cigarro. Penso no Joacir e em que merda será que o cara falou dela. Projeto o ser na minha mente: barba por fazer, sorrisinho de mal-caráter, mão no bolso, safado, magro. Porque "todo canalha é magro." Penso no Álvaro. Penso nela: Luiza. E por fim, penso que as toalha tão passada.
2 comentários:
pqp eu quero muito saber o que ele disse.
eu tenho a luiza na minha cabeça, agora.
e o filho da puta do joacir também.
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